DEPOIS DO ESPECTÁCULO...

O CIRCO É ORFÃO ?

Por trás do glamour, brilho, alegria, emoção e magia patentes em pista durante um espectáculo, escondem-se o trabalho, dedicação e preocupações de artistas e empresários muitas vezes ignorados pelo público. Neste sentido, Walter Dias é elucidativo, segundo ele os circenses andam constantemente na corda bamba (depois dos espectáculos) enfrentando dificuldades de vária ordem. Se para qualquer um de nós a "vida não é fácil" para empresários de circo a vida é quase impossível. Dependendo unicamente das receitas de bilheteira, é complicado gerir um espaço onde as despesas não escasseiam (desde salários do pessoal à alimentação de animais não esquecendo os serviços de manutenção, electricidade e combustível). No entanto, o problema base não se resume à falta de apoios financeiros: os entraves burocráticos e fantasmas não poupam igualmente quem optou fazer do circo a sua vida. Exemplo deste último é a constante recusa de terrenos por parte de certas autarquias impossibilitando assim a montagem de todo o aparato circense e consequentemente a apresentação dos seus espectáculos. Por outro lado, para conseguir reservar terreno na capital para a época natalícia do ano seguinte, o empresário necessita de estar às 07H00 do dia 2 de Janeiro às portas da câmara de Lisboa. A companhia do Atlas é constituída por 84 pessoas (78 artistas) e mais de 60 animais (entre leões, tigres, dromedários, camelos, zebróide, lamas, cabras, zebu, camelos, serpentes e crocodilos). Uma vez mais, os números não mentem: depois de conseguir terreno, a licença camarária leva-lhe 12500 euros (por 1 mês) e a terraplanagem do terreno para a tenda e 46 viaturas custa-lhe 3 500 euros. Mas as despesas do Atlas não ficam por aqui! O seguro corresponde a uma verba superior a 25 000 euros. Para a substituição da lona teria de gastar 100 000 euros, quantia que não dispõe. No que respeita a salários, Walter recorda com certa mágoa o facto de ter vendido 2 camiões há 5 anos atrás para obter dinheiro suficiente para proceder ao seu pagamento.

De facto, é o pagamento de salários que constitui a maior dor de cabeça dos empresários. Longe vão os tempos em que os artistas contavam com um salário certo por x dias de trabalho. Actualmente, e à semelhança de alguns países da Europa, um artista durante a temporada normal pode ganhar 50 a 150 euros, dependendo da qualidade do número; na época natalícia pode receber o dobro de tais montantes. No entanto, desengane-se quem pensa que este quadro é assim tão simples: a situação particular do circo, a exiguidade geográfica do nosso país (é inevitável a inclusão das mesmas cidades na rota anual), e a imprevisibilidade do público levou os empresários a adoptar estratégias que minimizem as despesas na contratação dos artistas. Para evitar a responsabilização da empresa, os contratos são na sua maioria verbais, a contratação de famílias é preferível à de um único artista (se ele não for multifacetado-voltaremos a esta questão mais tarde), pois pelo mesmo salário conseguem-se dois ou três números. Por outro lado, se há décadas atrás o trabalho pesado, publicidade, venda dos mais diversos artigos e guloseimas era da responsabilidade da família proprietária e dos seus empregados, actualmente os artistas são obrigados a desdobrarem-se numa lista infindável de actividades, sob pena de permanecerem no desemprego. Como se não bastasse, o pagamento de salários é feito de forma irregular, pelo que os descontos para a segurança social não existem e consequentemente, na velhice estes artistas apenas podem contar com o apoio familiar ou poupanças de anos de trabalho. De facto, é este o ponto que mais revolta os circenses: há casos em que o pagamento de meses em atraso só ocorreu na época natalícia e asseguram-nos que esta situação não é assim tão infrequente. Os empresários defendem-se dizendo que esta profissão é um risco: uma empresa pode enriquecer no Natal mas ir à falência no resto do ano. E acreditem que muitas noites mesmo com algum prejuízo para a empresa, realizam-se espectáculos para três dezenas de espectadores por forma a liquidar/suavizar estas dívidas.

Esta realidade é confirmada por todos os empresários. Adélio Roque, empresário do Americano não é excepção: "mesmo em alguns dias mais fracos é preciso trabalhar,… senão é mais um dia que o pessoal não recebe". Esta situação precária dos artistas circenses, nomeadamente a falta de contrato laboral, e a lista infindável de actividades que têm que cumprir não os dignifica, pelo menos, como artistas e não estimula a criatividade e apuramento de técnica, ao contrário do que acontece em outros países. A ausência de seguros revolta igualmente os artistas que as encaram como falta de reconhecimento da sua actividade pela sociedade em geral. Por outro lado, a maioria desta classe considera humilhante, a execução das várias tarefas (que competiriam à empresa e empregados) e aprendeu a reverter a ausência de vínculos à empresa a seu favor, pelo menos adiando temporariamente a sua insegurança. Torna-se evidente que os conflitos com os donos do circos sejam inevitáveis e que surjam propostas de outras companhias, pelo que quando tal acontece os circenses não hesitam: abandonam o empresa que os acolhera previamente em busca de melhores condições de trabalho. Face a esta instabilidade, o espectáculo é assegurado em grande parte (salvo nos natalícios) pela família proprietária e seu parque zoológico: são os chamados n.os residentes ou da casa! Mas esta realidade pode ser explicada por outra: se por um lado, é desvantajoso para a empresa apresentar mais do que 2 ou 3 atracções pelos mesmos artistas, desgastando a sua imagem e qualidade do espectáculo, por outro, não há condições financeiras para contratar grande nº de famílias. Este modelo torna-se ainda mais vantajoso quando falamos em acidentes, conflitos e alterações súbitas da companhia, pelo que é mais fácil redistribuir funções pelos membros da família proprietéria, muitas vezes sem o pagamento de salário.

Neste equilíbrio instável, qualquer medida menos consensual por parte do empresário desencadeará inevitavelmente alguns conflitos internos. Neste campo, a definição das rotas constitui a maior dor de cabeça dos proprietários uma vez que não existem cidades boas e más nem tão pouco factores preditivos de afluência de público. A população em geral considera que o circo se desloca de forma anárquica descrevendo trajectórias aleatórias: afinal, as caravanas e cartazes surgem inesperadamente e desaparecem com a mesma rapidez. No entanto, desengane-se quem subscreve tal opinião. A definição da rota acontece no início de cada ano e é confirmada junto do poder local, sendo apenas modificada quando a localidade em causa foi recentemente visitada por outro circo, ou a autarquia apresenta demasiados entraves burocráticos. A limitação geográfica nacional assim o impõe, pelo que "não podemos saturar as terras onde o circo vai muitas vezes", como diz Miguel Chen. Geralmente, as companhias trabalham de Janeiro/Fevereiro a Dezembro da seguinte forma: até Junho, estadias de 2 ou 3 dias na mesma terra, implicando várias deslocações por mês; de Julho a Setembro fixam-se durante semanas nas zonas balneares apostando na rotatividade do público; até Novembro (mês em que se preparam os espectáculos natalícios), deslocam-se de forma idêntica ao primeiro semestre, preferindo os arredores das grandes cidades e finalmente em Dezembro, as casas esgotam nos grandes centros urbanos e as receitas permitem a elaboração de melhores elencos. Quando interpledados relativamente à época crítica, a maioria dos empresários reconhece que Março, Abril e Maio são os meses tenebrosos, ao ponto da anulação de espectáculos por falta de público ser quase diária! No entanto, é impensável mudar para outra terra de imediato, pois quem mais perde com tal atitude são os empresários: convém relembrar que cada deslocação implica maior desvalorização do material desde a lona aos veículos de transporte, despesas referentes a água, luz, licenceamento, terreno… A título de curiosidade, refira-se que no Atlas, durante o Natal, a conta da água ascende os 3500€ e a electricidade os 5000€. Dizem que as pessoas não se interessam pelo circo, nós dizemos, o circo não está dentro das pessoas. Este facto não deve ser imputado aos empresários (pelo menos na sua maioria). Reconhecemos o seu esforço estóico (por vezes inglório, é certo) nesta verdadeira maratona diária, evitando a todo o custo o perecimento desta secular arte, colocando a reestruturação/adequação do aparato circense aos tempos modernos como grande prioridade. Afinal, a totalidade dos lucros é aplicada pelos proprietários em futuros investimentos nos seus circos, não nos parecendo razoável compreensível . Por outro lado, é sabido que o primeiro passo necessário à mudança de mentalidades consiste na informação e melhor adequação das leis que regem um povo! Qual o papel das campanhas de sensibilização?

Consideramos que o quadro que descrevemos (de uma forma superficial) é suficiente para adivinhar um futuro incerto para o maior dos espectáculos. Não é nosso propósito dramatizar a situação angustiante que o circo atravessa mas apenas divulgar a fragilidade e o abandono, palavras que cada vez mais, fazem parte do lêxico circense nacional. Esta complexa problemática não se esgota num malabarismo de receitas e contorcionismo de despesas na corda bamba! Afinal, o circo não necessita de esmolas mas apenas de melhores condições de trabalho para que o futuro seja digno do seu passado!

1